Professor cruza nove séculos da história de Portugal com o sobrenatural


Joaquim Fernandes, o autor da agora editada "História Prodigiosa de Portugal", cruza nove séculos da História nacional com o sobrenatural e relata como os portugueses estiveram "sempre ligados aos céus, mas piscando um olho aos infernos".
Este é o primeiro volume, com o subtítulo "Mitos e Maravilhas", estando prevista a edição de um segundo, com as "Magias e Mistérios".
"A gradação dos episódios e das narrativas, na sua textura ou, se quisermos, nos seus argumentos e conteúdos, vai progredindo de um contexto mais nubloso, menos preciso, que é o caso dos mitos, para descrições mais complexas, mais objetivas, como são os mistérios", explica Joaquim Fernandes à Agência Lusa.

Neste livro, editado pela Quidnovi, tudo começa com as figuras míticas de Tubal, Hércules, Luso e Ulisses, passa pela Atlântida portuguesa, pelos "prodígios da fundação" da nacionalidade e prossegue por temas recorrentes da História, como o culto mariano, o sebastianismo, ou por outras áreas menos conhecidas, como o "sobrenatural diabólico" ou as relações entre a astrologia e a política.
"Compartilhamos ainda hoje muitos destes sedimentos místicos, maravilhosos, que se vão reatualizando, e que são temas que nunca nos abandonam, em fórmulas que se vão sucedendo mais em termos de aparência do que de essência".
Joaquim Fernandes é professor da Universidade Fernando Pessoa, do Porto, e há muito tempo que os seus trabalhos se direcionam para o estudo de fenómenos extraordinários, sendo a sua tese de doutoramento em História sobre "O imaginário extraterrestre na cultura portuguesa". Foi coordenador da série da RTP "Encontros imediatos".
Neste livro, Joaquim Fernandes tenta "transcrever um conjunto de episódios e narrativas que foram dados como certos" e que refletem "o pendor para a crença numa certa tentação de sempre do povo português para se colocar nas mãos de outrem e de outros, sobretudo nos nossos pequenos e grandes deuses".
Para o autor, os portugueses estão "sempre ligados aos céus, mas piscando um olho aos infernos".
Joaquim Fernandes admite que não "faz muito um exercício de tentar ver se é verdade ou se é mentira" os episódios e lendas que relata. No entanto, observa e faz algumas comparações "com situações contemporâneas, com fenómenos similares, ou que já mereceram alguma resposta por parte da ciência ou do conhecimento científico atual".
O autor inscreve Portugal no cruzamento de "duas zonas de influência muito claras em termos das grandes construções míticas".
Por um lado, "o contributo mais nortenho de marca céltica, da própria marca do ciclo bretão, que está associado ao Rei Artur, à tradição das ilhas perdidas, que vai contaminar a versão do sebastianismo que é de origem hispânica".
Por outro lado, "uma outra dominante, que também tem construído e reconstruído, ao longo deste tempo todo, a tradição mediterrânica, marcadamente mais feminina, sobretudo nos cultos da fertilidade e que é aquilo que vai ser o culto da virgem, a tradição mariana".
De qualquer forma, considera que a nossa "matriz, vista pelo lado religioso e popular, é muito mais voltada para o elemento feminino, para o elemento lunar, enquanto eventualmente os países do Norte dessa constelação mais marcada pelo elemento celta, serão mais solares".
Entre todos os episódios relatados, o seu tema de eleição é o da "batalha de Ourique, com a aparição de Cristo crucificado dando a bênção a D. Afonso para prosseguir no combate ao inimigo mouro, para poder caminhar e ser eleito como pais vigiado pelos céus e protegido pelos céus".
Para o autor, este episódio é "o grande ponto de partida a partir do qual assentam todas as variantes fenomenológicas de tudo o que é milagroso e vai depois prosseguir durante os séculos seguintes, com variantes como o sebastianismo, o quinto Império. Enfim, esse sonho que vamos acalentando de que os céus nos ajudem a resolver os nossos problemas".
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